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Capítulo 1 - Filhos da noite

Author: Sky L.
last update publish date: 2020-11-16 07:38:00

Noites de lua cheia sempre traziam um conforto aos caçadores. A cidade pelo contrário estava sempre apavorada nesses dias. Uma neblina densa invadia as ruas, becos e estábulos de Junglet. Naquele dia em especial passos pesados acompanharam esta mesma neblina. O clã estava preparado para atacar se fosse necessário. 

Uivos se ouviam ao longe trazendo com seu som, a vertigem nos habitantes que se escondiam no conforto frágil de seus lares. As luzes dos candeeiros apagadas, a total escuridão. As crianças em suas camas apertavam os lençóis como se fossem escudos do mais impenetrável metal. Os pais ora na sala, ora em seus próprios quartos passavam mais uma noite em claro esperando para ver se não seriam invadidos, dilacerados por seja lá qual fosse a ameaça da noite. 

Nesta noite em especial eram lobos, enormes lobos com dentes afiados e garras do tamanho de uma mão juvenil. Não eram lobos comuns. Os habitantes da cidade conheciam os lobos comuns, alguns deles foram atacados quando partiam em viagens deserto adentro. Esses lobos andavam sobre duas pernas e atingiam facilmente os dois metros quando os faziam. 

Naquele fatídico dia, a madame do tapa olho, uma das pouquíssimas pessoas que não participavam do clã Clemency mas que não tinham medo da noite, resolveu que precisava caminhar um pouco. Enquanto seu marido dormia, a mulher saiu do Saloon e acendeu um cigarro. Entre uma tragada e outra, o chale ao redor dos ombros, os cabelos soltos e desarrumados e seus olhos numa expressão de puro descontentamento. Carmelia já estava a meses tentando engravidar. Sua vida havia se tornado pura frustração nas últimas semanas. O marido já estava a pressionando e a ameaçando de ser impura, infértil. 

A madame, despreocupada com o alvoroço da noite, apenas via a neblina e o brilho feiticeiro da lua cheia iluminando em prata as paredes de madeira e o chão de terra batida que marcava a larga avenida. Os passos se tornavam mais pesados a medida que se aproximavam do estabelecimento. A matilha se esgueirava pelos becos, farejavam comida, procuravam presas fáceis e ao chegar perto o suficiente os olhos de ambos se encontraram. 

O brilho escarlate dos olhos do lobo, encontraram o fosco do olho desnudo de madame tapa olho. A mulher não parecia preocupada. Estava acostumada a ver essas criaturas desde pequena quando ainda era uma escrava sexual dos senhores da cidadela onde perambulava antes de se casar com Pontaria Alcóolica. O lupino avançou em direção da madame, dissipando a neblina ao seu redor. Sedento e guloso pela sua descoberta, atacava os aliados que também notaram sua façanha, os retirando do caminho. 

Pelas marcas em seu corpo, este era o alfa. Havia pessoas que estudavam as criaturas da noite (pertencentes ao clã claro) e estas já haviam descoberto que quanto mais cicatrizes e quanto maior o lobisomen, mais havia chances dele ser um alfa, o chefe da matilha. Esse era o caso naquele momento. Carmelia permaneceu encarando o lobo como se estivesse entregando sua carne de bandeja. A criatura saltou para dar o bote de vitória sobre seu prêmio da noite, mas tudo se tornou um belo sonho quando uma pequena faca lhe atingiu na costela. E logo depois outra em seu braço direito, outra em sua perna. 

A matilha toda se reuniu para defender seu líder. Os caçadores também se reuniram para defender a madame, Erick sacou suas pistolas, Clarice seu revólver e Irma a autora dos lançamentos anteriores, suas facas, surgindo após um salto giratório ao lado dos outros dois. O resto do clã continuava estrategicamente posicionado em cima dos telhados, ou nas varandas com rifles e crossbows. Os lupinos rosnavam mostrando ameaça. Rodeavam os três que protegiam a madame. Ambos fixando seus olhares uns nos outros, inimigos contra inimigos. 

O primeiro lobo avançou mas rapidamente caiu abatido por um tiro certeiro no coração disparado por Erick. o segundo correu em direção de Irma mas fora rapidamente impedido por Clarice e seu revólver. Apesar da pontaria dela não ser tão boa quanto a de Erick, Clarice possuía uma boa noção de onde deveria mirar. Atingiu as pernas do seu adversário enquanto um terceiro avançava em sua direção sendo abatido por Irma em agradecimento. Logo a matilha toda avançou de uma vez. 

Os caçadores entraram em ação disparando com seus rifles e flechas, os três abaixo continuavam seus disparos, dando cobertura quando alguém precisava recarregar a arma. Os cintos cheios de balas da jovem e de seu rival que naquele momento se tornara aliado como sempre seria durante as batalhas mostravam que não tinham a mínima preocupação em passar a noite naquele combate se fosse preciso. Os gritos de algumas crianças dentro de suas casas eram abafados pelos disparos daqueles que estavam acima de seus quartos. O alfa se levantou e retirou cada uma as facas de seu corpo, uivou alto o suficiente para que fosse ouvido a quilômetros dali. Os caçadores sabiam o que isso significava: Reforços. 

Clarice respirou fundo e recarregou novamente sua arma enquanto Irma a dava cobertura lançando suas facas letais nos lupinos que ameaçavam avançar. Quando todos estavam caídos e apenas o Alfa permanecia de pé, rosnando sem demonstrar nenhum sinal de ataque, os reforços começaram a aparecer. Eram lobos de todos os lados. Cercando os caçadores. A luta se tornou intensa. Um dos lobos conseguiu saltar em direção de um dos caçadores na varanda, estraçalhando-o e fazendo de seu corpo uma embalagem de chocolate que acabava de ser aberta, mostrando suas vísceras como um banquete. Enquanto comia, outros avançavam. Enquanto avançavam outros eram abatidos. 

Um dos lupinos conseguiu penetrar a defesa dos três caçadores e atingiu Irma com um ataque na costela, Clarice rolou para esquivar do próximo golpe e atirou contra a criatura que se recusava a ser atingida, esquivando habilidosamente dos disparos inclusive de Erick. Seus olhos não eram vermelhos como o de seus companheiros, eram dourados e brilhantes. O lupino atingiu o habilidoso atirador lançando suas pistolas para longe e novamente avançou contra a jovem de pele alva. Irma lançou novas facas mas o lobo usou aliados mortos como escudo humano, outros lobos partiam para cima de Irma e Erick que se defendiam ainda caídos. Carmelia foi resgatada por uma sombra rápida que a laçou com uma corda a puxando para longe discretamente. O combate estava acirrado e logo, lobo e caçadora sumiram das vistas do confronto.

Clarice tentava recarregar o revólver mas a escuridão dos becos de Junglet dificultavam seu trabalho. A jovem começava a ficar nervosa enquanto xingava seu insucesso a cada tentativa frustrada de inserir uma bala no tambor. O lupino ainda a perseguia, seu rosnado podia ser ouvido por ela enquanto corria. O barulho do combate estava abafado, mostrando que eles estavam a uma certa distância dali. O lobo chegava cada vez mais perto da caçadora que esbarrou em uma parede de madeira que delimitava o caminho a sua frente. Estava sem saída, do seu lado havia um estábulo e do outro apenas outra parede de uma outra casa frágil da cidade. 

A porta do estábulo estava apodrecida, nenhum cidadão se preocupava em ser roubado, não havia ladrões deste nível em Junglet. Clarice adentrou a construção enquanto cavalos relinchavam baixo de tão fracos. Procurando se esconder em um lugar que houvesse ao menos a luz da lua cheia para que tivesse mais sucesso na recarga de seu equipamento bélico. O adversário era mais forte e podia ver no escuro sua adversária se escondendo sem sucesso. Em um momento de guarda baixa. O inimigo aproveitou a deixa da caçadora e avançou em sua direção mas Clarice no último instante havia conseguido inserir uma bala no tambor do revólver e atirou na direção do lupino sem se preocupar com a mira. O lobo caiu após um gemido no chão, e não se levantou, aliviando a jovem caçadora.

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