LOGINA exaustão do combate fez Clarice adormecer em cima de um fardo de feno. Quando a jovem acordou estava ao seu lado um corpo sangrando mas não era do lobo que ela havia atingido na noite anterior e sim de um homem. Era alto, moreno, a pele suada pela febre provocada pelo ferimento. Balbuciava algo incompreensível. Estava nu e tinha sangue seco ao redor. A jovem segurou um grito com a boca e tentou se recompor respirando fundo e analisando a situação. Afinal lobisomens eram homens amaldiçoados pelo Lorde das trevas.
A questão é que os caçadores sempre limpavam o campo de combate antes de qualquer transformação ser desfeita e antes mesmo do dia clarear. A jovem nunca havia visto um lobisomem antes da transformação, daí o espanto. Agora era hora de escolher se agia com a frieza de um caçador ou com a misericórdia de um humano ingênuo.
O homem ainda estava vivo, ela poderia salvá-lo, ou pôr fim ao seu sofrimento, porém olhando agora em sua forma humana, Clarice não via nada além de um ser como qualquer outro daquela cidade. Rasgou um pedaço de sua blusa e tentou estancar o ferimento, o homem estava a beira da morte. A caçadora seguiu até o cocho, molhando outra tira de pano, espremeu e voltou ao paciente colocando o pano úmido em sua testa. Quando finalmente conseguiu diminuir o sangramento, notou que era hora de retirar a bala para que pudesse costurar a ferida e assim poder parar o sangramento totalmente. A questão é que naquele momento, Clarice não possuía os itens necessários para cuidar do ser à sua frente.
Ainda era cedo e a cidade começava a acordar. Clarice aproveitou o pouco movimento para ir até a sede e buscar o que era necessário. Ao entrar, Erick a esperava de braços cruzados na porta dos fundos. Talvez soubesse que ela escondia algo. O caçador a questionou várias vezes até que a jovem irritada, nervosa e ainda com sangue nas mãos o empurrou com toda a sua força fazendo o rival bater com as costas em uma parede. Com isso estava livre para seguir o seu plano. Naquele horário, os caçadores estavam dormindo. Era assim na maioria das vezes. Depois de passarem as noites em claro, os dias eram para descansar.
O que a caçadora não contava era que Trevor não seguia o ritual que ele mesmo havia estabelecido. Afinal ele não tinha aparecido na noite anterior, pelo menos não enquanto ela estava no campo de batalha. Para ele o dia era para se preparar. No meio do corredor enquanto tentava chegar à enfermaria em total silêncio, Clarice esbarrou em seu pai adotivo que estranhou o fato dela estar fora da cama depois de ter tido uma batalha tão desgastante na noite anterior.
— Alguém está com muita energia aqui. O que faz fora do quarto? — Iniciou o chefe a olhando de cima a baixo a procura de pistas que a entregassem.
— Ah eu acordei e fiquei sem sono, resolvi dar uma caminhada pelas instalações, senhor. — Escondia as mãos nos bolsos traseiros da calça já que estas a entregariam por completo.
— Por que não tomou as gotas de sono que o doutor Viktor havia receitado? — Continuava o questionamento, uma mão levada ao queixo analisando as respostas da jovem. Trevor não era bobo, sabia que estava mentindo, mas queria que um deslize entregasse a caçadora.
— Aquelas gotas são horríveis. — Argumentou fazendo cara de nojo. — Por mais que eu não deva ter frescuras como o senhor mesmo diz, as vezes é bom nos dar o luxo de quebrar esse acordo. Afinal eu não estou fazendo nada demais certo?
— Vai estar cansada mais tarde, todos recuperados e você quem mais têm potencial, sem energia alguma para acompanhá-los. Não seria um tanto vergonhoso Clarice? — Trevor conseguiu ver manchas de sangue nos pulsos da jovem, os bolsos manchados, Clarice mentia mais do que ele havia pensado. Até que ponto ela seria capaz de enganá-lo? Teria se machucado? E a blusa rasgada?
— Não se preocupe papai, eu só vou ao banheiro e volto para a cama se isso o agradar. Considere-se honrado por me fazer burlar meus próprios instintos e tomar aquelas gotas horríveis pelo senhor. — Forçou um sorriso e começou a caminhar lentamente esperando que esta resposta o satisfizesse.
— Está machucada? — Disse Hanson enquanto ajeitava o casaco. — Suas mãos, estão sujas de sangue, você não estava na coleta ontem após o combate, se machucou? E essas roupas?
— Ah eu… — Clarice suspirou vendo que não conseguiria sair logo daquela situação se não mostrasse alguma rendição, Hanson olhava para baixo como se esperasse a verdade. A caçadora o conhecia bem, aquela expressão nunca mentia. — Erick e Irma foram atingidos e eu corri para os becos da cidade para escapar de um deles que começou a me perseguir, eu consegui abatê-lo no final. Fiz a coleta como manda o código de combate. Por isso o sangue papai… Pensei que fosse me punir por ter saído da formação mas se eu continuasse talvez não estaria aqui agora.
— Está tudo bem, mas precisa limpar isso, sua roupa está digna de um forasteiro no deserto. Tome um banho, troque as vestimentas e vá para a cama. Mais tarde teremos treinamento. Vocês foram muito burros em alguns momentos e se esta cidade não puder contar conosco, com quem ela vai contar? — Hanson respirou fundo e mirou Clarice que agora se sentia aliviada, notando que sua história tinha convencido o caçador. — Não podemos mais admitir erros, entendido?
Clarice acenou em afirmativo e se despediu seguindo até o banheiro, lavou as mãos e fez o que seu pai adotivo lhe pedira, rapidamente pois não podia se dar o luxo de demorar ou o homem dentro do estábulo morreria. Correu para a enfermaria tomando cuidado para não trombar com o chefe do clã novamente. Pegou tudo que conseguiu e correu pelos becos mais discretos até chegar ao estábulo novamente. Se vissem ela pela cidade, Hanson não acreditaria mais em sua história e ela estaria perdida. Talvez descobrissem sua façanha e o risco não teria valido o esforço.
Ao chegar ao estábulo Clarice se desesperou. O corpo não estava mais onde ela havia deixado, apenas uma poça de sangue marcava o local. Os cavalos relinchavam e o feno ao redor estava revirado. Logo pensou que deveria ter matado logo o desgraçado, até ouvir grunhidos no fundo da construção. Puxou seu revólver e mirou em direção ao som. Notando que era sua vítima se esgueirando pelas paredes tentando fugir sem sucesso. O homem voltou a desmaiar próximo a porta dos fundos do local. Em cima de alguns couros.
A caçadora novamente se viu no dilema de terminar o serviço ou salvá-lo. Ela abaixou e observou atentamente o homem caído que agora respirava fracamente. Sua barba suada e rala, a boca ressecada e rachada, os cabelos lisos bagunçados e obviamente ainda sem roupas. Clarice não pôde deixar de reparar no volume entre suas pernas e sua mente a acusava de perversão enquanto seu corpo pareceu gostar do que via.
A jovem usou alguns couros para cobrir o local profano se recompondo de suas fantasias e iniciou seus cuidados médicos, removeu a bala com uma pinça enquanto o desconhecido grunhiu de dor. Tentou novamente estancar a ferida e logo após a suturou. Ele permanecia com febre mas ela não poderia continuar ali, assim como não podia abandonar um inimigo em potencial assim, mesmo que naquele momento fosse mais indefeso que um filhote de cão. Os olhos claros da caçadora observavam cada pedaço do lugar em busca de alguma ideia que fizesse sentido e que fosse eficaz.
O homem voltou a balbuciar alguma coisa e Clarice observava atenta para tentar entender o que ele falava, desta vez seus olhos abriram lentamente, enquanto ele permanecia falando. “Água, preciso de água” Clarice entendeu depois de um pequeno esforço. Foi ao cocho que estava mais próximo agora e juntou um pouco de água com as mãos. levando com todo cuidado que era possível até o desconhecido. O homem bebeu a água com um pouco de dificuldade e ela repetiu o trajeto mais duas vezes até ele fazer um breve sinal de que estava satisfeito. sua boca ressecada agora úmida ganhava um tom levemente rosado. Havia perdido muito sangue e ainda estava extremamente fraco. A jovem caçadora sentou-se vendo que aquilo seria mais difícil do que ela pensava. Naquele momento a cidade já estava movimentada, seria complicado voltar a sede do clã de forma omissa.
Enquanto pensava numa forma de ajudar o homem enquanto ajudava a si mesma, uma garotinha surgiu no estábulo com dois baldes cheios de comida para os cavalos. Restos obviamente. Nenhum animal tinha comida decente em Junglet pois até mesmo seus moradores não possuíam esse luxo. A garotinha segurou um grito deixando os baldes caírem e tentou se afastar aos poucos andando para trás. Clarice ouviu o barulho e olhou diretamente na direção, levantando-se num sobresalto.
A exaustão do combate fez Clarice adormecer em cima de um fardo de feno. Quando a jovem acordou estava ao seu lado um corpo sangrando mas não era do lobo que ela havia atingido na noite anterior e sim de um homem. Era alto, moreno, a pele suada pela febre provocada pelo ferimento. Balbuciava algo incompreensível. Estava nu e tinha sangue seco ao redor. A jovem segurou um grito com a boca e tentou se recompor respirando fundo e analisando a situação. Afinal lobisomens eram homens amaldiçoados pelo Lorde das trevas.
Noites de lua cheia sempre traziam um conforto aos caçadores. A cidade pelo contrário estava sempre apavorada nesses dias. Uma neblina densa invadia as ruas, becos e estábulos de Junglet. Naquele dia em especial passos pesados acompanharam esta mesma neblina. O clã estava preparado para atacar se fosse necessário.
Desde os tempos mais antigos, todos nós sabíamos da existência das criaturas da noite. Em Junglet, todos sabiam que a noite o sal era primordial nas janelas e portas afinal, “espanta os demônios”, diziam eles.Junglet era uma cidade de madeiras podres